🌺 Resenha Crítica – Rilla de Ingleside
- Blog Nova Síntese
- 28 de jan.
- 3 min de leitura
Com Rilla de Ingleside, Lucy Maud Montgomery encerra o ciclo da família Blythe com uma obra surpreendentemente madura e histórica.
Se os primeiros livros da série são marcados pela leveza, pela natureza e pela formação íntima do caráter, aqui o cenário se expande: o mundo está em guerra.
E com ele, a inocência também.

🌍 A guerra como ruptura
Pela primeira vez na série, o conflito não é doméstico ou emocional — é global. A Primeira Guerra Mundial invade Ingleside e transforma a rotina em ansiedade constante.
Os filhos de Anne crescem diante dos nossos olhos, mas não por escolha. Eles são forçados a amadurecer.
A atmosfera muda. O riso dá lugar à espera. As cartas substituem os encontros. O medo torna-se presença silenciosa à mesa.
“A guerra não transforma apenas nações — transforma corações.”
Lucy constrói o impacto da guerra não pelo campo de batalha, mas pelo lar que aguarda notícias.
🌸 Rilla: da vaidade à coragem
Rilla começa o livro como a mais vaidosa e despreocupada dos filhos de Anne. Sonha com festas, vestidos e olhares admirados.
Mas a guerra a molda.
Uma das cenas mais marcantes é quando Rilla, impulsivamente, assume a responsabilidade por um bebê órfão — o pequeno Jims. Ali nasce uma nova Rilla.
Não é apenas um gesto caridoso. É o símbolo de sua transição da adolescência para a maturidade.
“Crescer não é perder os sonhos — é descobrir por quem vale a pena lutar.”
Ao cuidar de Jims, Rilla aprende sobre sacrifício, disciplina e amor incondicional.
Essa transformação é uma das mais poderosas da série.
💔 Cenas que marcam profundamente
Entre os momentos mais impactantes estão:
A despedida dos rapazes que partem para a guerra, carregada de coragem forçada e lágrimas contidas.
As reuniões da comunidade costurando e organizando campanhas de apoio.
A espera angustiante por cartas.
A dor silenciosa diante das notícias irreversíveis.
Lucy escreve a guerra com respeito e humanidade. Não glorifica o conflito — mostra seu custo.
E esse custo é emocional.

🏡 Ingleside sob nova luz
Ingleside, antes símbolo de estabilidade e calor familiar, torna-se espaço de tensão e resistência.
Anne aparece agora como mãe que precisa ser forte. A menina sonhadora de tranças ruivas é, agora, mulher que consola, sustenta e espera.
Essa mudança é sutil, mas profunda.
“A coragem não é ausência de medo; é continuar apesar dele.”
Essa frase poderia definir o espírito do livro inteiro.
✨ A escrita mais madura de Lucy
Entre todos os livros do universo de Anne, Rilla de Ingleside talvez seja o mais sério.
Há menos contemplação da natureza e mais contemplação do destino humano. Ainda assim, Lucy não abandona a delicadeza. O céu, as estações e os campos continuam presentes — como lembrete de que a vida persiste.
O contraste entre a beleza natural e o horror da guerra intensifica a experiência de leitura.

📚 Análise Crítica
Rilla de Ingleside é um romance de formação sob circunstâncias extremas.
Ele aborda:
Patriotismo e perda
Juventude interrompida
Responsabilidade precoce
Amor em tempos incertos
É um livro mais contido, mais histórico, mais reflexivo.
Alguns leitores podem sentir falta do romantismo leve dos primeiros volumes. Mas aqui Lucy entrega algo diferente: profundidade histórica e emocional.
Ela mostra que o crescimento mais verdadeiro acontece quando somos testados.

🌅 Conclusão
Ler Rilla de Ingleside é como observar um pôr do sol após uma tempestade longa: há beleza, mas também cicatrizes.
É o livro que fecha a série com maturidade.
Se Anne nos ensinou a sonhar, Rilla nos ensina a resistir.
E talvez essa seja a mensagem final de Lucy Maud Montgomery:
A imaginação nos forma. O amor nos sustenta. Mas é a coragem que nos define.
Ao fechar a última página, sentimos que crescemos junto com aquela família — e que, como Rilla, também somos capazes de nos tornar mais fortes do que imaginávamos.🌺


